Quem “cel” Eu sem meu “soulular”? (Quem sou EU sem meu celular?)
- Eldemir Alencar
- 11 de jun. de 2023
- 6 min de leitura

Introdução:
Nos últimos anos, o avanço da tecnologia, em especial dos dispositivos móveis, tem transformado a forma como nos comunicamos, trabalhamos e nos divertimos. O celular se tornou uma extensão de nossas mãos, estando sempre presente em nossas vidas. No entanto, é importante refletir sobre os impactos desse uso excessivo e constante em nossa saúde e, em particular, no desenvolvimento infantil. Neste artigo, exploraremos pesquisas que abordam os benefícios e riscos do uso excessivo de tecnologia, destacando autores e fontes bibliográficas confiáveis.
Benefícios do uso de tecnologia:
É inegável que a tecnologia trouxe muitos benefícios para nossa sociedade. Segundo a pesquisadora Sherry Turkle, em seu livro "Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other" (Sozinhos Juntos: Por que Esperamos mais da Tecnologia e menos uns dos outros), a conectividade digital pode criar oportunidades de comunicação e interação social, especialmente em situações de isolamento físico. Além disso, o acesso fácil e rápido à informação pode aumentar o conhecimento e facilitar o aprendizado.
No entanto, é importante utilizar a tecnologia de forma equilibrada, especialmente quando se trata de crianças em fase de desenvolvimento. A seguir alguns riscos do uso excessivo de tecnologia para a saúde:
Estudos têm mostrado que o uso excessivo de tecnologia, em especial o tempo despendido em dispositivos móveis, pode ter efeitos negativos na saúde física e mental. A pesquisa realizada por Jean M. Twenge et al., intitulada "Increases in Depressive Symptoms, Suicide-Related Outcomes, and Suicide Rates Among U.S. Adolescents After 2010 and Links to Increased New Media Screen Time" (Aumento dos Sintomas Depressivos, Resultados Relacionados ao Suicídio e Taxas de Suicídio entre Adolescentes nos EUA após 2010 e a Ligação com o Aumento do Tempo de Exposição a Novas Mídias) revelou uma associação entre o aumento do tempo gasto em frente às telas e o aumento dos sintomas de depressão e ideação suicida em adolescentes.
Além disso, um estudo conduzido por Jenny Radesky et al., intitulado "Patterns of Mobile Device Use by Caregivers and Children During Meals in Fast Food Restaurants"
(Padrões de Uso de Dispositivos Móveis por Cuidadores e Crianças Durante as Refeições em Restaurantes de Fast Food), mostrou que o uso excessivo de dispositivos móveis pelos pais durante as refeições pode prejudicar a interação e o desenvolvimento das crianças. Essa falta de interação pode levar a problemas de desenvolvimento social e emocional.
Desenvolvimento infantil e o papel dos dispositivos móveis:
A Academia Americana de Pediatria publicou diretrizes que recomendam limitar o tempo de exposição de crianças menores de 18 meses a telas digitais, e incentivar a partir dessa idade o uso de mídias de alta qualidade e educativas. A interação face a face e o brincar livre são essenciais para o desenvolvimento infantil, e o uso excessivo de dispositivos móveis pode interferir nesse processo.
A seguir algumas diretrizes sobre o uso de dispositivos móveis em crianças:
Para crianças com menos de 18 meses: É recomendado evitar o uso de dispositivos eletrônicos, com exceção de chamadas de vídeo supervisionadas por um adulto¹.
Para crianças de 18 a 24 meses: Limitar o tempo de tela a programas de alta qualidade e educativos, sempre com supervisão de um adulto. A AAP também orienta que o tempo de tela nessa faixa etária seja limitado a 1 hora por dia.²
Para crianças de 2 a 5 anos: Limitar o tempo de tela a 1 hora por dia de atividades de alta qualidade, supervisionadas por um adulto.³
Para crianças de 6 a 12 anos, limitar o tempo de tela: Recomenda-se que o tempo total de tela, incluindo o uso do celular, seja limitado a 1 a 2 horas por dia.
Para adolescentes de 13 a 18 anos, a recomendação é que o tempo total de tela seja monitorado, mas não há um limite específico estabelecido*.
Recomendações:
1). Criar um ambiente de sono saudável: É importante estabelecer um período de desligamento de dispositivos antes de dormir. Recomenda-se que as crianças e adolescentes evitem o uso de dispositivos eletrônicos pelo menos uma hora antes de dormir para garantir um sono de qualidade**.
2). Estabelecer limites e regras claras: Os pais devem definir regras e limites para o uso do celular, incluindo horários específicos para uso, restrições de conteúdo inadequado e práticas seguras de uso da internet. É importante envolver as crianças e adolescentes na discussão e estabelecimento dessas regras ***.
Lembrando que essas recomendações são diretrizes gerais, e os pais devem adaptá-las às necessidades e circunstâncias individuais de cada criança ou adolescente. O diálogo aberto e contínuo entre pais, cuidadores e filhos é fundamental para promover um uso saudável e equilibrado dos dispositivos móveis.
É importante também consultar as diretrizes específicas de organizações de saúde e pediatria em seu país, pois recomendações podem variar ligeiramente de acordo com a região e os especialistas locais.
Não é somente em crianças que há impactos negativos do uso excessivo de dispositivos móveis:
1. Saúde mental: O uso excessivo de celular pode contribuir para o aumento do estresse, ansiedade e depressão. Estar constantemente conectado às redes sociais, receber notificações e mensagens incessantes pode levar a um estado de hiperconectividade e dificuldade em desconectar e relaxar ****.
1. Relacionamentos interpessoais: O uso excessivo do celular pode interferir na qualidade e na intimidade dos relacionamentos pessoais. A atenção constante ao celular durante interações presenciais pode reduzir a conexão emocional, a comunicação e a interação face a face*****.
2. Produtividade e desempenho no trabalho: O uso excessivo de celular pode afetar negativamente a produtividade e o desempenho no trabalho. A constante distração causada pelo uso do celular pode levar a interrupções frequentes e a uma menor capacidade de se concentrar em tarefas importantes******.
3. Distúrbios do sono: A exposição à luz azul emitida pelos dispositivos móveis pode interferir no ciclo do sono e prejudicar a qualidade do sono. O uso do celular antes de dormir pode dificultar o adormecimento e levar a problemas de insônia.
Conclusão:
O uso de dispositivos móveis se tornou uma parte integrante de nossas vidas, proporcionando benefícios como comunicação e acesso à informação. No entanto, é necessário ponderar sobre os riscos associados ao uso excessivo, especialmente para a saúde e o desenvolvimento infantil. É fundamental buscar um equilíbrio saudável no uso da tecnologia, estabelecendo limites e priorizando a interação humana, especialmente no caso das crianças em fase de desenvolvimento.
Os pais e educadores desempenham um papel fundamental na orientação e
supervisão do uso dos dispositivos móveis pelas crianças, promovendo atividades offline, como brincadeiras ao ar livre, leitura e interações sociais face a face. A conscientização sobre os potenciais riscos e os benefícios limitados do uso excessivo de tecnologia pode auxiliar na construção de um ambiente saudável para o crescimento e desenvolvimento das crianças.
Em última análise, cada indivíduo deve refletir sobre sua própria relação com a tecnologia e seu impacto em sua identidade e bem-estar. Ao equilibrar o uso de dispositivos móveis com outras atividades significativas, podemos descobrir quem somos além da dependência do celular e cultivar relacionamentos autênticos e uma conexão mais profunda com o mundo ao nosso redor.
Eldemir Alencar é psicólogo clínico, especialista em Neurociências e Terapias Meditativas Aplicadas à Saúde, pós graduado em Naturologia – Terapias Naturais e Holísticas, Gestão de Pessoas e Constelação Sistêmica Familiar. Autor dos livros: Vencendo o Vício Sexual e Romântico: A Perda do Eu e os Prazeres da Ilusão e o Cárcere do Prazer: Como o vício sexual e o romântico corroem a alegria de viver.
Referências
¹ A Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics - AAP) fornece essa recomendação com base em seu documento "Media and Young Minds" (2016). Referência: AAP Council on Communications and Media. (2016). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), e20162591.
² Referência: AAP Council on Communications and Media. (2016). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), e20162591.
³"Media and Young Minds" (2016).Referência: AAP Council on Communications and Media. (2016). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), e20162591.
* Referência: AAP Council on Communications and Media. (2016). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), e20162591.
**.Referência: Carter, B., Rees, P., Hale, L., Bhattacharjee, D., & Paradkar, M. S. (2016). Association Between Portable Screen-Based Media Device Access or Use and Sleep Outcomes: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics, 170(12), 1202-1208.
***Referência: AAP Council on Communications and Media. (2016). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), e20162591.
****Referência: Elhai, J. D., Dvorak, R. D., Levine, J. C., & Hall, B. J. (2016). Problematic smartphone use: A conceptual overview and systematic review of relations with anxiety and depression psychopathology. Journal of Affective Disorders, 207, 251-259.
***** Referência: Roberts, J. A., & David, M. E. (2016). My life has become a major distraction from my cell phone: Partner phubbing and relationship satisfaction among romantic partners. Computers in Human Behavior, 54, 134-141.
******Referência: Clayton, R. B., Leshner, G., & Almond, A. (2015). The extended iSelf: The impact of iPhone separation on cognition, emotion, and physiology. Journal of Computer-Mediated Communication, 20(2), 119-135.
Referência: Chang, A.-M., Aeschbach, D., Duffy, J. F., & Czeisler, C. A. (2015). Evening use of light-emitting eReaders negatively affects sleep, circadian timing, and next-morning alertness. Proceedings of the National Academy of Sciences, 112(4), 1232-1237.
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