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COMO ME PERDI DE MIM MESMO?

Atualizado: 27 de out. de 2022


FASE 1: BEBÊS E SUAS DESCOBERTAS


Ao nascer um ser humano, um mundo de descobertas se abre. Sua atenção e reações são imediatamente requeridas desde os primeiros suspiros vitais. Na sala de parto, quem não chora apanha. A vida começa dura, o trabalho de sobrevivência já iniciou, agora com a participação ativa do novo ser vivo que acabou de chegar ao mundo.

Sons, cheiros, tato, rostos, temperaturas, um turbilhão de sensações invade quem acabou de nascer, o desenvolvimento galopa a passos largos com a formação de milhares de conexões neurológicas, e, cada dia que passa, o bebê se torna um grande palco do show da existência. Deslumbramento é pouco para as novas capacidades que emergem diariamente. Tudo é muito lindo, milagroso, excitante e fofo.


FASE 2: CRIANÇAS PEQUENAS E O PODER DE ATRAÇÃO DOS DISPOSITIVOS DIGITAIS


Na primeira infância, brinquedos eletrônicos, videogames, TVs, tablets, celulares, patinetes elétricos, etc., literalmente, fazem os olhos de qualquer criança brilharem. Atrações mentais como essas são competidores desleais frente às brincadeiras de soltar pipa, pular corda, esconde-esconde, pega-pega, brincadeiras que exigem mais da sabedoria corporal.


FASE 3: NA PRÉ-ADOLESCENCIA E PUBERDADE: A BUSCA POR OUTRO ALGUÉM QUE A SALVE DA SOLIDÃO


Na pré-adolescência e puberdade, os reclames hormonais entram em erupção (muitas vezes, estimulados precocemente por meio de conteúdos adultos na Internet) e impulsionam uma busca ardente por parcerias amorosas e sexuais (apesar dos esforços religiosos, culturais e sociais de freá-los). Mais uma vez, anseia-se por algo “lá fora”. “Gosto dele ou dela, preciso de alguém para ser feliz”.


FASE 4: ADUTO JOVEM E OS RECLAMES SOCIAIS


No início da vida adulta (para pessoas que já superaram a fase de autoafirmação amorosa), iniciam-se as cobranças sobre a escolha de uma profissão, um relacionamento estável com filhos (casamento), acúmulo de bens e reconhecimento profissional. O matrimônio vem, os filhos nascem, alcançam-se postos profissionais e continua-se a buscar a próxima necessidade ainda não atendida, muitas vezes não percebida, só se sente que falta algo.


CHEGARAM LÁ! ESTÃO A SALVO?


Muitos seguiram à risca a cartilha social padrão: estudaram, casaram, arranjaram empregos, empreenderam, projetaram-se publicamente, “tornaram-se alguém”, e, muitas vezes, sentimentos de tristeza, solidão, angústia e vazio não diminuíram, pelo contrário. E agora?

Calma, a Medicina pós-moderna ainda tem algumas cartas na manga, a indústria farmacêutica nunca se abstém e oferece comprimidos baratinhos mágicos (com receituário azul), prometendo que serão capazes de eliminar esse limbo sentimental, mental e existencial. Outra indústria não fica atrás: oferta variedades incontáveis de bebidas alcóolicas que também prometem esquecimento da dor, divertimento e algum prazer em viver.

As religiões, com uma abordagem diferente, culpam um inimigo externo que trabalha arduamente para destruir a humanidade e ensinam que o paraíso vem depois da morte, pelo menos para aqueles que creem. Não podemos nos esquecer do mercado das substâncias ilícitas que também vende a ilusão de te tirar seus usuários desse caos onde nada mais faz sentido, pelo menos enquanto durarem os efeitos químicos artificiais...


DEPOIS DE TENTAR DE TUDO...


Tentadas várias estratégias de evitação (esquiva) e resolução da dor e do vazio, a pessoa pode constatar que estar consigo mesma é sinônimo de estar muito mal acompanhada (que triste constatação!). Assim, ele ou ela evita ficar sozinho(a) em silêncio a qualquer custo. Esse silêncio passa a ser perturbador demais. Assim, precisam estar muito ocupados, pois, afinal, "mente vazia é oficina do Diabo". Para muitos, ficar dentro de si pode ser uma experiência privada quase enlouquecedora.


DOR PARA QUÊ TE QUERO?


Culturalmente, você aprendeu que não deveria sentir dor, desconforto ou sensações desagradáveis. Pensamentos e sentimentos negativos deveriam ser evitados, combatidos ou expulsos como demônios invasores. O sucesso é ser feliz, ou, pelo menos, aparentar. Afinal, o que deu errado na receita cultural e social de felicidade que foi ensinada desde a mais tenra infância?

Você não foi treinado para sentir dor. Não aprendeu a sofrer, muito menos a perder. Não foi treinado para estar no aqui e no agora, o único lugar onde a vida pode acontecer. Não faz a mínima ideia de como estar presente para si mesmo. Continua procurando soluções externas e, por mais que encontre certo alívio (temporário), continua empurrando sujeiras e bichos peçonhentos interiores indesejáveis para um compartimento secreto, uma espécie de porão psíquico que mais parece uma panela de pressão sem válvula de escape.

Será que a dor cumpre uma missão? Sim. Ela quer alertar e ensinar algo. Ela precisa ser vivida para entregar sua mensagem, se não, vira sofrimento. E o sofrimento não vivido vira transtorno. Quem se dispõe a sentir dor? Quem se disponibiliza a fazer contato com sensações e sentimentos dolorosos que se abrigam no seu interior?

Talvez, o erro mais importante da vida foi negligenciar a importância de estar em si, presente, atento, disponível para sentir e testemunhar os fenômenos da vida psíquica interior. Discriminam a meditação que nada mais é do que um treinamento mental, emocional e de atenção consciente e que tem se mostrado cientificamente útil para a saúde física e mental.


ACHO QUE PERDI ESSA IMPORTANTE AULA...


Toda dor e todo prazer se manifestam no agora, somente no agora. Podemos sofrer pelo futuro ou nos remoer de coisas do passado, porém tudo acontece no presente. Impossível sofrer no ontem ou no amanhã: o sofrimento do passado ou o do futuro só podem ser experimentados – repito – no aqui e agora. E você, por onde anda? Ocupado e distraído do aqui e agora? Ausente para si? Sem sua presença, impossível você suprir necessidades básicas de amor, atenção e preenchimento. Não acessa a sabedoria da vida e se distancia do poder vital. Torna-se um supercarente (mesmo parecendo forte e corajoso), um verdadeiro poço sem fundo de necessidades.


AINDA TENHO SALVAÇÃO?


A boa notícia é que a casa está com as portas sempre abertas. Sim. Foi abandonada por muito tempo, talvez precise de uma grande faxina por causa da poeira acumulada, demandará persistência, mas, em breve, estará pronta para ser habitada como refúgio seguro de paz, sabedoria e serenidade. Voltar ao lar é um processo, não acontece da noite para o dia. Procurar profissionais qualificados pode ser útil, principalmente aqueles que não prometem evitar a dor, mas, sim, estratégias de melhor saber enfrentar e lidar com elas.


COMO INÍCIO O CONTATO COMIGO MESMO?


Feche os olhos agora mesmo, faça contato com sua respiração. Não importa o tempo. Sinta o que precisa sentir e aceite o que vier como parte dos desígnios da força da vida.

Quem se dispuser corre o risco de encontrar uma sabedoria interior com recursos criativos e ilimitados para a resolução de qualquer situação dolorosa, aos que persistirem, transformarão sofrimento em combustível para a ampliação da consciência. Melhorarão relacionamentos. Bom demais para ser verdade? Muito subjetivo? Experimente, confie, entregue-se, peça ajuda. No começo, pode ser que as coisas fiquem um pouco mais agudas, mas quem persistir corre o risco de descobrir um novo mundo interior.


Eldemir Alencar é psicólogo clínico. Especialista em Neurociências Terapias Meditativas Aplicadas à Saúde. Pós-graduado em Naturologia e Terapias Sistêmicas Familiares. CRP13/10.401.








 
 
 

6 comentários


Danielle Cristine
Danielle Cristine
23 de mar. de 2022

Parabéns, palavras sábias e profundas, tocantes na alma!

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Eldemir Alencar
Eldemir Alencar
27 de abr. de 2022
Respondendo a

Obrigado querida pelas generosas palavras!

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maryadrianyj
20 de mar. de 2022

Texto maravilhoso. Parabéns 👏👏👏👏

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Eldemir Alencar
Eldemir Alencar
20 de mar. de 2022
Respondendo a

Muito obrigado querida!

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Eu recomendo☝︎︎

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Eldemir Alencar
Eldemir Alencar
20 de mar. de 2022
Respondendo a

Obrigado querida!

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