top of page

Medo de Perder, Medo de Viver


Há muito tempo deixamos de ser caçados por animais selvagens. Assumimos o topo da cadeia alimentar dos predadores carnívoros. Não precisamos mais nos esconder em cavernas e não precisamos mais ficar atentos à barulhos estranhos em meios a arbustos densos e selvagens. Não corremos mais o risco de sermos devorados (exceto se você se aventurar a dar um mergulho na praia de Boa Viagem/Recife/PE), brincadeiras sem graça à parte, apesar de tudo parece que a sensação de constante ameaça na vida para muitos de nós não nunca nos abandonou.


Muito antes da ameaça pandêmica, da diminuição da oferta de emprego e renda e da desaceleração da economia mundial, já vivíamos em alerta constante, uma espécie de hipervigilância que nos cobra um alto preço: deixar de confiar e viver em paz com o próximo.

Por causa dessa sensação de perigo (as vezes nítida, as vezes camufladas de outros sentimentos) vivemos como se a qualquer hora pudesse nos acontecer uma tragédia que colocasse em risco nossas vidas e as vidas das pessoas que nos são caras.


Muitos não contam com o sentimento de segurança que uma fé religiosa produz, um DEUS esse que pessoalmente cuida de nós, nos protege de todo o mal e que nos receberá no paraíso depois de nossa morte. Muitos não contam com as endorfinas consoladoras dessa certeza metafísica.


Pessoas que não confiam, vivem tentando se proteger. Não relaxam, não se abrem, não descansam, não dormem direito, se relacionam superficialmente, sofrem de problemas psicossomáticos (tal como enxaqueca, problemas estomacais e intestinais e outros...) e tentam se distrair desse constante desconforto atráves de vícios e acabam se isolando.


Adotam diversas estratégias de fugas anestésicas (álcool, drogas, comidas, trabalho...) o que os ajudam a se tornarem alvos fáceis dos mais diversos tipos de dependências.

Muitos de nós ainda não tiveram a oportunidade de ter pai ou mãe ou ambos, ou os perdemos muito precocemente. Outros foram abandonados na primeira infância, se tornando órfãos de pais vivos. A sensação de desamparo pode ser muito familiar e de certa forma sobrevivemos até aqui.

Confiar em alguém ou na vida pode ser um pedido além de nossa vontade, pois as defesas cerebrais primitivas de sobrevivência já foram ativadas por dores, nossos sentinelas pessoais trabalham como entidades autônomas, tentam nos proteger a qualquer custo, mesmo que paguemos um preço muitas vezes caro demais. A solidão.


Viver assim é um fardo pesadíssimo. Quem está na guerra sempre na eminência de ser alvejado é um sério candidato a se esconder ou a atacar. E quando a ameaça não passa mesmo depois que a guerra acaba? Vivemos em constante conflitos.

No fundo temos medo de perder. Para nós, algumas perdas são análogas à própria morte. Morremos de medo de perder, morremos de medo de viver. A sensação é de uma continua ameaça que pode até não parecer ser muito nítida, pois muitos de nós se formam, arranjam bons empregos, prosperam, se casam e são muito bem sucedidos, mas no fundo não confiam em ninguém, nem mesmo neles próprios.


Podemos ter nos tornados “Dom Juan” da sedução e ainda sim sentirmos a mais básica e dolorosa solidão. Não confiar nas pessoas e na vida é ser incapaz de se abrir para amar. Queremos muito nos relacionar, queremos muito nos entregar, mas nossas defesas inconscientes dizem “não” e não nos perguntam nossa opinião. Não conseguimos nos vincular e ponto final. Ficamos de fora do espetáculo da vida. Evitamos alguns riscos e consequentemente evitamos conexões.


O medo perpassa por todas as áreas da vida: medo de não ter ou perder o emprego, medo de perder o casamento, medo de perder pessoas que amamos, medo de perder a saúde, medo de perder a liberdade, medo de perder a autoconfiança, medo de perder a reputação, medo perder sua autoestima, enfim medo de perder a sanidade.


Como viver bem em meio a tantas possibilidades de tragédias potencias na vida do dia-a-dia?


Acreditamos que a tomada de consciência (autoconhecimento) pode ser um dos caminhos para o fortalecimento do eu e da dessensibilização do doloroso processo para se abrir e se vincular.


O segundo passo é você assumir a responsabilidade por tudo que lhe acontece como parte de uma cadeia de eventos que estão a serviço da evolução da nossa espécie. E que somos co autores do espetáculo da realidade.


Concordando ou não a vida é a escola da perda e está na hora de aprendermos a perder, sem morrermos antes do tempo. Traumas, Estresse Pós Traumático (TEPT) e vícios tem tratamento e recuperação. Ainda dá tempo de nos abrir, nos conectar e amar.

Já parou para pensar que estratégias crônicas de defesa pode ser uma tentativa falida de evitar dores/traumas não resolvidos?


Eldemir Alencar, Psicólogo Clínico. Especialista em Neurociências e Terapias Meditativas Aplicadas à Saúde, Naturologia e Constelação Familiar Sistêmica. Professor, consultor, além do consultório se dedica a Fundação Iara Alencar, entidade voltada para tratamento dos traumas e vícios.

 
 
 

Comentários


bottom of page